21/07/2011

Nocturnos (7)

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E as paredes da casa mantêm-se mudas.
Pior. Pior do que o silêncio é a indiferença fria com que me olham.
Acolho-me a elas e não estão lá.
Elas sabem - partilharam.

Sabem agora da ( minha) solidão desesperada.
Da não presença.
Partilham.

Mas hirtas e em silêncio. ( quem pudera ser como elas...)

Perpassam sobre a cidade os uivos dos ventos desregrados, ritmados pelos tambores da trovoada longínqua.
E sacodem, dos recantos sombrios da casa que me habita, vozes do passado.

Fico à espera do sol da manhã.
Cantará aleluias, a minha alma.



texto e foto de fernanda s.m.

11/07/2011

O entendimento

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    katsushika hokusai


« (...) Katherine fora entendendo, cada vez mais e cada vez melhor, que histórias como essa, sendo reais não eram generalizáveis, porque embora todos façam a experiência do nascimento e da morte, só poucos recebem o privilégio do amor correspondido e partilhado. (...) »


Helena Marques - « O bazar alemão » - D. Quixote

05/07/2011

Nocturnos (6)

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No meu barco a remos no meio da imensidão do mar.
Creio que também houve uma bússola. Outrora.
Não remo.
Olho, à deriva, o horizonte.
É esta imensidão que me apazigua a alma.
Ora azul doirada, como convém à esperança.
Ora, agora, cinzenta plúmbea, raios róseos fugidios, lá no alto.
Não me incomoda nem me perturba. O cinzento dos mares e dos céus.
Perturba-me não me saber a mim, não conhecer meu rumo.
Os remos, docemente calados no meu regaço, de nada me servem.
Tal como a bússola de hoje me seria inútil.
A de outrora é que me é necessária.

*******
Tenho remos e sei remar.
Só não sei o rumo.
Não remo, não quero.
E conforta-me a intimidade solitária do bote que me acolhe.
Só, na imensidade do mar azul-chumbo.

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Boa noite, meu amor.

texto e foto de fernanda s.m.



06/05/2011

L'aubépine - pilriteiro

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    foto da net


L'aubépine en fleur fut mon premier alphabet.

René Char



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Et l'Homme chantera tout haut cette fois comme
Si la vie était belle et l'aubépine en fleurs

Santa espina
(Deux poèmes d'outre-tombe
Le Crève-Coeur, 1941)

Louis Aragon

27/03/2011

primavera oriental

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É primavera.


No seu coxim reclinada,


Com o alaúde na mão,


Long-Li cantava, inspirada,


Uma lânguida canção.



............... Anoitecera.


Long-Li ergueu-se, e a sorrir


Abriu a sua janela.


Nos céus, trémula, a luzir


Surgiu a primeira estrela.



E branca a lua nascia!


Uma brisa rescende


Levantou o cortinado


De seda azul. De repente,


A um reflexo prateado,



Long-Li empalidecia.


O seu quarto de dormir


Ficou cheio de luar.


Ela deixou de sorrir


E quedou triste, a cismar



............... Recordava:


Fora numa noite assim,


Noite silenciosa e clara,


Que Long-Li atravessara


A ponte do seu jardim ...



Fora numa noite igual,


Que ela, a mais mimosa flor


Do seu jardim oriental,


Entristecera de amor!


E Long-Li chorava ...


Maria Anna Tamagnini - «Lin Tchi Fá » - Flor de Lótus


foto da net



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Maria Anna de Magalhães Colaço Acciaioli Tamagnini nasceu em Torres Vedras em 1900, vindo a falecer em 1933, pouco antes de completar os 33 anos de idade. Era casada com o então governador de Macau, Artur Tamagnini Barbosa. Deixou muita colaboração dispersa por vários jornais e revistas da época. Esta sua colectânea de poemas, publicada pela primeira vez em 1925 e reeditada pelo Instituto Cultural de Macau em 1991, é agora trazida de novo a público pela Editorial Tágide com o patrocínio exclusivo da Fundação Jorge Álvares, arrancando assim à sombra do olvido uma extraordinária poetisa do orientalismo. ( N. B. do Editor )

foto da net

21/03/2011

A Poesia da primavera [f]

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sentir a flor como carícia deslizando sobre a pele
e o sabor das romãs dissolvendo-se na boca
como se fosse a espuma das águas na quilha do navio


orlando cardoso

foto de fernanda s.m.

A Poesia da primavera [e]

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O rouxinol de Bernardim
era teu ou era meu
quando veio de madrugada
tecer seu canto no muro do jardim?

(...)

No jardim de minha casa
há sempre uma rima de Bernardim
que canta aflita de madrugada,
como se houvesse uma levada
e essa fosse a do teu amor por mim !


José Ribeiro Marto - « Pastoreio »
foto de fernanda s.m.

A Poesia da primavera [d]

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Há uma rapariga de luz
a devastar areia pedra sal
esplendor de excesso que mata

com olhos colhidos
em lugares de madressilva
onde sonhos se cortam
como flores batidas sobre o vento

a enfeitar a tempestade


Graça Magalhães - « Na memória dos pássaros »
foto de fernanda s.m.