28/08/2011

É o cansaço da vida, esperar

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Agressivas são as nuvens de tão rutilantes, entre sol e chuva.
Surgem delas aves que volteiam, livres.
Invejo-as.
Ofereço-lhes o tudo que as minhas mãos guardam para que o levem com elas para o infinito, para a eternidade.
Mas livres, tontas de liberdade e de espaço, as aves nem dão por mim.
Seguem. Seguem outro destino...
Recolho nos braços uma certa ternura que deixaram pairando no ar.
E espero.
É o cansaço da vida, esperar.
Esperar, olhando o mar, olhando o céu.
Nesta espera me consumo e me alento.

******
Rumo a ti, mar, e banho os olhos no azul salgado da tua água.
Deixo que passes as tuas ondas frescas sobre a minha cabeça.
Reabro os olhos e vejo-me perdida na tua eterna imensidão.


*****
És o eterno sobrevivente do cosmos.
Atrais e recolhes as estrelas cansadas de brilharem no manto da noite.
E, nesta manhã, encostada à brancura da minha janela, olho a serena força com que reconstróis a vida.
Reconstróis as rochas que banhas e o areal que para ti se estende.
Recrias as manchas de cor diversas que fazes bailar.
Reinventas o som, ora manso, ora feroz das tuas águas.


E eu sou sobrevivente, também.
Mas inerte e atónita.
Como os barcos cuja faina foi
bruscamente interrompida
e no areal ficaram sem jeito nem reconstrução.


À espera.

texto e foto de fernanda s.m.

26/08/2011

31/07/2011

O tempo passado em forma de Haicai

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Ah, o passado,
o tempo onde se acumularam
os dias lentos.

Busson - s.XVII

28/07/2011

Ainda a sesta - receita para uma sesta "gourmet"

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A Sesta - Almada Negreiros, carvão sobre papel, 68x100cm

A longa sesta da tarde é para "connaisseurs" do sono uma sobremesa requintada.
Para ter a certeza de que acorda refrescado, siga estes simples passos:

1. - Se não tiver portadas, corra as cortinas ou os estores. O quarto deve estar mergulhado numa luz suave e calma.
2. - Tire os sapatos. Dispa apenas a roupa desconfortável ou que se amarrote mais.Queira estar, de certo modo, vestido para a ocasião: a sesta "gourmet" é um assunto formal.
3. - Dê uma olhadela às horas, tire o relógio, e decida quando quer acordar. Confie no seu subconsciente para o despertar quando acabar o tempo.
4. - Deite-se por debaixo dos cobertores, mas não sob os lençóis.
5. - Feche os olhos e imagine-se num pequeno barco, prestes a empreender uma viagem curta. Levante a âncora e deixe o barco seguir. De início, a água pode parecer picada, mas depressa diminuem as ondas e ver-se-à a velejar em mar calmo.
6. - Será acordado por um choque - a quilha a raspar na areia. Arraste-se devagar para fora da cama, como se estivesse a puxar o barco para a praia.
7.- Passe a cara por água, espreguice-se, abra a janela. Não se apresse. Tem imenso tempo à sua frente.

*****
in « A Arte de Não Fazer Nada » de Véronique Vienne - Sinais de Fogo.

25/07/2011

A sesta - (a arte de dormir a sesta)

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    Cartão para tapeçaria, de Augusto Mota, 1961


Se tem muito que fazer, faça uma sesta - apenas de dez minutos. Por mais ridículo que possa parecer, deixar-se cair da beira da consciência é, frequentemente, a melhor maneira de recuperar o tempo extra de que necessita para cumprir um prazo.
Refugiar-se num leve cobertor de sono a meio de um dia atarefado não é muito diferente de escavar um túnel de fuga que passe sob horários de trabalho impossíveis, agendas sobrepostas e dores de cabeça programadas, e que lhe permita emergir alguns minutos depois com um olhar fresco para a vida.
(.....)
A vontade de se aninhar ao início da tarde constitui um sinal de alerta de que lhe está a faltar bom senso ou discernimento.
( .....)
Num lugar povoado de insonio-maníacos, quem dorme a sesta parecerá sempre suspeito.
Nos países latinos passa-se o oposto. Quem não faz sesta é considerado esquisito.
(.....)
Mesmo antes de se render, admita: um pequeno toque de culpabilidade até acrescenta sabor ao fascínio dos Zzzzz diurnos.


in,« A Arte de Não Fazer Nada » de Véronique Vienne,com fotografias de Erica Lennard, da Sinais de Fogo.

21/07/2011

Nocturnos (7)

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E as paredes da casa mantêm-se mudas.
Pior. Pior do que o silêncio é a indiferença fria com que me olham.
Acolho-me a elas e não estão lá.
Elas sabem - partilharam.

Sabem agora da ( minha) solidão desesperada.
Da não presença.
Partilham.

Mas hirtas e em silêncio. ( quem pudera ser como elas...)

Perpassam sobre a cidade os uivos dos ventos desregrados, ritmados pelos tambores da trovoada longínqua.
E sacodem, dos recantos sombrios da casa que me habita, vozes do passado.

Fico à espera do sol da manhã.
Cantará aleluias, a minha alma.



texto e foto de fernanda s.m.

11/07/2011

O entendimento

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    katsushika hokusai


« (...) Katherine fora entendendo, cada vez mais e cada vez melhor, que histórias como essa, sendo reais não eram generalizáveis, porque embora todos façam a experiência do nascimento e da morte, só poucos recebem o privilégio do amor correspondido e partilhado. (...) »


Helena Marques - « O bazar alemão » - D. Quixote

05/07/2011

Nocturnos (6)

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No meu barco a remos no meio da imensidão do mar.
Creio que também houve uma bússola. Outrora.
Não remo.
Olho, à deriva, o horizonte.
É esta imensidão que me apazigua a alma.
Ora azul doirada, como convém à esperança.
Ora, agora, cinzenta plúmbea, raios róseos fugidios, lá no alto.
Não me incomoda nem me perturba. O cinzento dos mares e dos céus.
Perturba-me não me saber a mim, não conhecer meu rumo.
Os remos, docemente calados no meu regaço, de nada me servem.
Tal como a bússola de hoje me seria inútil.
A de outrora é que me é necessária.

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Tenho remos e sei remar.
Só não sei o rumo.
Não remo, não quero.
E conforta-me a intimidade solitária do bote que me acolhe.
Só, na imensidade do mar azul-chumbo.

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Boa noite, meu amor.

texto e foto de fernanda s.m.



06/05/2011

L'aubépine - pilriteiro

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    foto da net


L'aubépine en fleur fut mon premier alphabet.

René Char



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Et l'Homme chantera tout haut cette fois comme
Si la vie était belle et l'aubépine en fleurs

Santa espina
(Deux poèmes d'outre-tombe
Le Crève-Coeur, 1941)

Louis Aragon