22/10/2011

Ode ao outono

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    Vinhas escarlates, em Arles - 1888, VAN GOHG




ODE AO OUTONO


1


Estação de neblinas, doce e fecunda!
Companheira íntima do sol, com ele vais,
Quando ele abençoa e inunda
De frutos as videiras junto dos beirais;
Pra vergar de maçãs a musgosa macieira
E a fruta por inteiro tornar madura
Pra inchar as cabaças, prà avelã ficar gorda
Com uma doce amêndoa; há flores com fartura
Pra que a abelha as tenha sempre que queira
E pense haver dias quentes a vida inteira,
Pois o verão seus favos pegajosos transborda .


2


Quem não te viu já de fartura rodeada?
Às vezes, quem te procura sob outros céus,
No chão dum celeiro encontra-te descuidada,
O vento da limpeza ergue-te os cabelos.
Ou num rego meio-ceifado, em fundo torpor,
Tonta do perfume das papoulas, parada
A foice, junto da ceara a ceifar te demoras;
Às vezes, tens direita, qual rebuscador1,
A pesada cabeça, ao passar a ribeira;
Ou, junto de a prensa, observas tranquila
A cidra a gotejar no fluir das horas.


3


Que é das canções da Primavera? Onde hão-de estar?
Esquece-as, tua música também tem valor –
Nuvens orlam o dia morrendo devagar
Tingem os restolhos de sua rósea cor;
De os mosquitos a dorida serrazina,
Crescente, entre os salgueiros do rio se ouvia,
Diminuindo, se o vento fica mais brando;
Os cordeiros balem na próxima colina;
Cantam grilos, alto, mas cheios de harmonia,
Num quintal, pisco vermelho assobia,
E as andorinhas chilreiam nos céus em bando.


John Keats (1795-1821)


Trad. António Simões, in «Antologia de Poesia Anglo-Americana», Campo das Letras, Outubro de 2002

21/10/2011

Cicatrizes

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Há cicatrizes que, periodicamente, desabrocham em flores brancas.

Enganadoras na sua virgindade.

E o persistente aroma suave que delas se evola, na noite cálida, entontece a alma.

Mistificadoras, perfumam a lua que as banha de fantasia.

A aurora encontra-as já esmaecidas, recolhidas nas cicatrizes que as devoram.

Acabou-se o encantamento da ilusão.

E o coração retoma a sua dor de sangue.

*


fotos e texto de fernanda s.m.

04/10/2011

4 de outubro

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         Aguarela da autoria  de Silva Rocha in http://corepinceladas.blogspot.com/


Um violoncelo
persegue-me
com o seu forte canto dorido.
Olho para trás:
não o vejo, mas oiço-o
Avanço e procuro-o
no bosque.
Oiço-o, mas não o vejo.
Entro no azul do mar.
Mas também aí
Não o vejo, mas oiço-o.
É azul, o seu sofrido canto.
E envolve-me.
Envolve-me  num abraço inefável.
Percebo, então,
que o seu planger
vem das nuvens.
E é azul.
Não o azul do céu,
mas o azul-azeviche
do cabelo de minha Mãe.

fernanda s.m

28/09/2011

O livro e a borboleta

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Desenho e composição de Augusto Mota

28/08/2011

É o cansaço da vida, esperar

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Agressivas são as nuvens de tão rutilantes, entre sol e chuva.
Surgem delas aves que volteiam, livres.
Invejo-as.
Ofereço-lhes o tudo que as minhas mãos guardam para que o levem com elas para o infinito, para a eternidade.
Mas livres, tontas de liberdade e de espaço, as aves nem dão por mim.
Seguem. Seguem outro destino...
Recolho nos braços uma certa ternura que deixaram pairando no ar.
E espero.
É o cansaço da vida, esperar.
Esperar, olhando o mar, olhando o céu.
Nesta espera me consumo e me alento.

******
Rumo a ti, mar, e banho os olhos no azul salgado da tua água.
Deixo que passes as tuas ondas frescas sobre a minha cabeça.
Reabro os olhos e vejo-me perdida na tua eterna imensidão.


*****
És o eterno sobrevivente do cosmos.
Atrais e recolhes as estrelas cansadas de brilharem no manto da noite.
E, nesta manhã, encostada à brancura da minha janela, olho a serena força com que reconstróis a vida.
Reconstróis as rochas que banhas e o areal que para ti se estende.
Recrias as manchas de cor diversas que fazes bailar.
Reinventas o som, ora manso, ora feroz das tuas águas.


E eu sou sobrevivente, também.
Mas inerte e atónita.
Como os barcos cuja faina foi
bruscamente interrompida
e no areal ficaram sem jeito nem reconstrução.


À espera.

texto e foto de fernanda s.m.

26/08/2011

31/07/2011

O tempo passado em forma de Haicai

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Ah, o passado,
o tempo onde se acumularam
os dias lentos.

Busson - s.XVII

28/07/2011

Ainda a sesta - receita para uma sesta "gourmet"

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A Sesta - Almada Negreiros, carvão sobre papel, 68x100cm

A longa sesta da tarde é para "connaisseurs" do sono uma sobremesa requintada.
Para ter a certeza de que acorda refrescado, siga estes simples passos:

1. - Se não tiver portadas, corra as cortinas ou os estores. O quarto deve estar mergulhado numa luz suave e calma.
2. - Tire os sapatos. Dispa apenas a roupa desconfortável ou que se amarrote mais.Queira estar, de certo modo, vestido para a ocasião: a sesta "gourmet" é um assunto formal.
3. - Dê uma olhadela às horas, tire o relógio, e decida quando quer acordar. Confie no seu subconsciente para o despertar quando acabar o tempo.
4. - Deite-se por debaixo dos cobertores, mas não sob os lençóis.
5. - Feche os olhos e imagine-se num pequeno barco, prestes a empreender uma viagem curta. Levante a âncora e deixe o barco seguir. De início, a água pode parecer picada, mas depressa diminuem as ondas e ver-se-à a velejar em mar calmo.
6. - Será acordado por um choque - a quilha a raspar na areia. Arraste-se devagar para fora da cama, como se estivesse a puxar o barco para a praia.
7.- Passe a cara por água, espreguice-se, abra a janela. Não se apresse. Tem imenso tempo à sua frente.

*****
in « A Arte de Não Fazer Nada » de Véronique Vienne - Sinais de Fogo.

25/07/2011

A sesta - (a arte de dormir a sesta)

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    Cartão para tapeçaria, de Augusto Mota, 1961


Se tem muito que fazer, faça uma sesta - apenas de dez minutos. Por mais ridículo que possa parecer, deixar-se cair da beira da consciência é, frequentemente, a melhor maneira de recuperar o tempo extra de que necessita para cumprir um prazo.
Refugiar-se num leve cobertor de sono a meio de um dia atarefado não é muito diferente de escavar um túnel de fuga que passe sob horários de trabalho impossíveis, agendas sobrepostas e dores de cabeça programadas, e que lhe permita emergir alguns minutos depois com um olhar fresco para a vida.
(.....)
A vontade de se aninhar ao início da tarde constitui um sinal de alerta de que lhe está a faltar bom senso ou discernimento.
( .....)
Num lugar povoado de insonio-maníacos, quem dorme a sesta parecerá sempre suspeito.
Nos países latinos passa-se o oposto. Quem não faz sesta é considerado esquisito.
(.....)
Mesmo antes de se render, admita: um pequeno toque de culpabilidade até acrescenta sabor ao fascínio dos Zzzzz diurnos.


in,« A Arte de Não Fazer Nada » de Véronique Vienne,com fotografias de Erica Lennard, da Sinais de Fogo.