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29/11/2011
22/11/2011
Não há minutos na eternidade
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Como é que se esquece alguém que se ama?
Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.
Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'
01/11/2011
NORA - ALGARVE ONTEM
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NORA - ALGARVE ONTEM É já no próximo sábado, dia 5, pelas 17 horas, que o meu mais recente livro "Algarve Ontem" será apresentado na Livraria Pátio das Letras *, em Faro. A apresentação estará a cargo do Doutor Vilhena Mesquita, Professor da Universidade do Algarve e Presidente da AJEA (Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve). Sobre os aspectos histórico/etnográficos das fotografias (de antes da década de 60), que acompanham os poemas, dissertará o Dr. Brazão Gonçalves, que colaborou no livro, escrevendo essas notas sobre antigas actividades algarvias, agora extintas ou em vias de.
.Era na cadência demorada duma roda de alcatruzes
– engrenagem mourisca engendrada noutras mentes –
que descobríamos o sabor das tardes cálidas de Julho
a paz lenta e a bucólica placidez das hortas.
Os nossos olhos recobriam-se do verde azul dos milhos
o aroma do barro inundado pela água que brotava
do devaneio dum fauno, ou a frescura das laranjeiras
numa grinalda em flor para uma noiva anunciada.
Era nesses dias de intensa e mansa transparência
que nos iludíamos de eternidade sobre a terra,
no eterno retorno da água em seu ciclo de frescura
tingindo o nosso olhar da cor das nêsperas e morangos.
Era nesses dias de menino que nos detínhamos
no esplendor dos dias longos de idílios e desejos,
voando ao sabor das horas desprendidas, da inocência,
herdando o engenho da roda e da água gerando a luz.
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* Rua Cândido Guerreiro
in "Algarve Ontem" de Vieira Calado
Gentilmente cedido pelo blog - http://vieiracalado-poesia.blogspot.com/
22/10/2011
Ode ao outono
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Vinhas escarlates, em Arles - 1888, VAN GOHG
ODE AO OUTONO
1
Estação de neblinas, doce e fecunda!
Companheira íntima do sol, com ele vais,
Quando ele abençoa e inunda
De frutos as videiras junto dos beirais;
Pra vergar de maçãs a musgosa macieira
E a fruta por inteiro tornar madura
Pra inchar as cabaças, prà avelã ficar gorda
Com uma doce amêndoa; há flores com fartura
Pra que a abelha as tenha sempre que queira
E pense haver dias quentes a vida inteira,
Pois o verão seus favos pegajosos transborda .
2
Quem não te viu já de fartura rodeada?
Às vezes, quem te procura sob outros céus,
No chão dum celeiro encontra-te descuidada,
O vento da limpeza ergue-te os cabelos.
Ou num rego meio-ceifado, em fundo torpor,
Tonta do perfume das papoulas, parada
A foice, junto da ceara a ceifar te demoras;
Às vezes, tens direita, qual rebuscador1,
A pesada cabeça, ao passar a ribeira;
Ou, junto de a prensa, observas tranquila
A cidra a gotejar no fluir das horas.
3
Que é das canções da Primavera? Onde hão-de estar?
Esquece-as, tua música também tem valor –
Nuvens orlam o dia morrendo devagar
Tingem os restolhos de sua rósea cor;
De os mosquitos a dorida serrazina,
Crescente, entre os salgueiros do rio se ouvia,
Diminuindo, se o vento fica mais brando;
Os cordeiros balem na próxima colina;
Cantam grilos, alto, mas cheios de harmonia,
Num quintal, pisco vermelho assobia,
E as andorinhas chilreiam nos céus em bando.
John Keats (1795-1821)
Trad. António Simões, in «Antologia de Poesia Anglo-Americana», Campo das Letras, Outubro de 2002
21/10/2011
Cicatrizes
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Há cicatrizes que, periodicamente, desabrocham em flores brancas.
Enganadoras na sua virgindade.
E o persistente aroma suave que delas se evola, na noite cálida, entontece a alma.
Mistificadoras, perfumam a lua que as banha de fantasia.
A aurora encontra-as já esmaecidas, recolhidas nas cicatrizes que as devoram.
Acabou-se o encantamento da ilusão.
E o coração retoma a sua dor de sangue.
*
fotos e texto de fernanda s.m.
17/10/2011
04/10/2011
4 de outubro
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Aguarela da autoria de Silva Rocha in http://corepinceladas.blogspot.com/
Um violoncelo
persegue-me
com o seu forte canto dorido.
Olho para trás:
não o vejo, mas oiço-o
Avanço e procuro-o
no bosque.
Oiço-o, mas não o vejo.
Entro no azul do mar.
Mas também aí
Não o vejo, mas oiço-o.
É azul, o seu sofrido canto.
E envolve-me.
Envolve-me num abraço inefável.
Percebo, então,
que o seu planger
vem das nuvens.
E é azul.
Não o azul do céu,
mas o azul-azeviche
do cabelo de minha Mãe.
fernanda s.m
28/09/2011
28/08/2011
É o cansaço da vida, esperar
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Agressivas são as nuvens de tão rutilantes, entre sol e chuva.
Surgem delas aves que volteiam, livres.
Invejo-as.
Ofereço-lhes o tudo que as minhas mãos guardam para que o levem com elas para o infinito, para a eternidade.
Mas livres, tontas de liberdade e de espaço, as aves nem dão por mim.
Seguem. Seguem outro destino...
Recolho nos braços uma certa ternura que deixaram pairando no ar.
E espero.
É o cansaço da vida, esperar.
Esperar, olhando o mar, olhando o céu.
Nesta espera me consumo e me alento.
******
Rumo a ti, mar, e banho os olhos no azul salgado da tua água.
Deixo que passes as tuas ondas frescas sobre a minha cabeça.
Reabro os olhos e vejo-me perdida na tua eterna imensidão.
*****
És o eterno sobrevivente do cosmos.
Atrais e recolhes as estrelas cansadas de brilharem no manto da noite.
E, nesta manhã, encostada à brancura da minha janela, olho a serena força com que reconstróis a vida.
Reconstróis as rochas que banhas e o areal que para ti se estende.
Recrias as manchas de cor diversas que fazes bailar.
Reinventas o som, ora manso, ora feroz das tuas águas.
E eu sou sobrevivente, também.
Mas inerte e atónita.
Como os barcos cuja faina foi
bruscamente interrompida
e no areal ficaram sem jeito nem reconstrução.
À espera.
texto e foto de fernanda s.m.
26/08/2011
Varandas de um palácio que reabriu
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Palácio das Varandas
Os poetas - a sangue e lava - revelam surpresas selvagens
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http://palaciodasvarandas.blogspot.com/2011/08/poesia-nao-vai-de-eugenio-de-andrade.html
Palácio das Varandas
Os poetas - a sangue e lava - revelam surpresas selvagens
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http://palaciodasvarandas.blogspot.com/2011/08/poesia-nao-vai-de-eugenio-de-andrade.html










