31/12/2011

Poesia árabe - IBN ‘AMMÂR

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À bem-amada


minh’alma quer-te com paixão
ainda que haja nisso uma tortura.


que estranho ser difícil nossa ligação
se os desejos d’ambos concordaram !


que quereria mais meu coração,
ao desejoso te buscar em buscar vão,
se meus olhos te viram e amaram?


Allâh bem sabe que não há razão
de vir aqui senão para te ver.


que o vigia não nos possa achar
se o nosso reencontro acontecer
Pra os teus lábios doces eu provar.


folgarei no jardim da tua face,
beberei desses olhos o langor,


e mesmo que um terno ramo imitasse
o teu talhe grácil, sedutor,
valerias mais que o imitador.


não te ocultes, oh jardim secreto:
quero colher meu fruto predilecto!

IBN ‘AMMÂR


* - Abû Bakr Muhammad, mais conhecido pelo nome de Ibn ‘Ammâr, nasceu em 422/1031, nos arredores de Silves, mais precisamente em Santibus, um pequeno lugarejo chamado pelos árabes Shannabûs.

in « IBN ‘AMMÂR AL-ANDALUSÎ » de ADALBERTO ALVES e HAMDANE HADJADJI. – Assírio & Alvim

foto de fernanda s.m. - Sevilha

18/12/2011

O menino-deus

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e então o menino-deus abriu a sua caixa de brinquedos
pegou numa estrela e atirou-a lá para fora :
acendeu a noite !

o menino-deus agarrou depois numa linda bola azul ,
dois bonecos , uma lágrima e lançou-os juntos lá para baixo
e sorriu ...

hoje, em cima da bola , olho a estrela
e sonho esse gesto distante
que ditou o princípio das coisas


*

antónio




Com um abraço para o António Cardoso Pinto AQUI
foto de fernanda s.m.

10/12/2011

Por amor de um verso

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POR AMOR DE UM VERSO

Por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, têm que se conhecer os animais, tem que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores se abrem pela manhã. É preciso poder tornar a pensar em caminhos em regiões desconhecidas, em encontros inesperados e despedidas que se viram vir de longe, – em dias de infância ainda não esclarecidos, nos pais que tivemos que magoar quando nos traziam uma alegria e nós não a compreendemos (era uma alegria para outro), em doenças de infância que começam de maneira tão estranha com tantas transformações profundas e graves, em dias passados em quartos calmos e recolhidos e em manhãs à beira-mar, no próprio mar, em mares, em noites de viagem que passaram sussurrando alto e voaram com todos os astros, - e ainda não é bastante poder pensar em tudo isto. É preciso ter recordações de muitas noites de amor, das quais nenhuma foi igual a outra, de gritos de mulheres no parto e de parturientes leves, brancas e adormecidas que se fecham. Mas também é preciso ter estado ao pé de moribundos, ter ficado sentado ao pé de mortos no quarto com a janela aberta e os ruídos que vinham por acessos. E também não é ainda bastante ter recordações. É preciso saber esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter a grande paciência de esperar que elas regressem. Pois que as recordações mesmas ainda não são o que é preciso. Só quando elas se fazem sangue em nós, olhar e gesto, quando já não têm nome e já se não distinguem de nós mesmos, só então é que pode acontecer que, numa hora muito rara, do meio delas se erga a primeira palavra de um verso e saia delas.


 Rainer Maria Rilke, in “ Os Cadernos de Malte Laurids Brigge”, (versão portuguesa, pp 19-20).

foto de fernanda s.m. - o "Gago Coutinho" , Olhos d'Água, engolido pelo mar em 2010.

29/11/2011

22/11/2011

Não há minutos na eternidade

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Como é que se esquece alguém que se ama?

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

01/11/2011

NORA - ALGARVE ONTEM

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NORA - ALGARVE ONTEM

É já no próximo sábado, dia 5, pelas 17 horas, que o meu mais recente livro "Algarve Ontem" será apresentado na Livraria Pátio das Letras *, em Faro. A apresentação estará a cargo do Doutor Vilhena Mesquita, Professor da Universidade do Algarve e Presidente da AJEA (Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve). Sobre os aspectos histórico/etnográficos das fotografias (de antes da década de 60), que acompanham os poemas, dissertará o Dr. Brazão Gonçalves, que colaborou no livro, escrevendo essas notas sobre antigas actividades algarvias, agora extintas ou em vias de.
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Era na cadência demorada duma roda de alcatruzes
– engrenagem mourisca engendrada noutras mentes –
que descobríamos o sabor das tardes cálidas de Julho
a paz lenta e a bucólica placidez das hortas.

Os nossos olhos recobriam-se do verde azul dos milhos
o aroma do barro inundado pela água que brotava
do devaneio dum fauno, ou a frescura das laranjeiras
numa grinalda em flor para uma noiva anunciada.

Era nesses dias de intensa e mansa transparência
que nos iludíamos de eternidade sobre a terra,
no eterno retorno da água em seu ciclo de frescura
tingindo o nosso olhar da cor das nêsperas e morangos.

Era nesses dias de menino que nos detínhamos
no esplendor dos dias longos de idílios e desejos,
voando ao sabor das horas desprendidas, da inocência,
herdando o engenho da roda e da água gerando a luz.


-
* Rua Cândido Guerreiro


in "Algarve Ontem" de Vieira  Calado

Gentilmente cedido pelo blog - http://vieiracalado-poesia.blogspot.com/

22/10/2011

Ode ao outono

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    Vinhas escarlates, em Arles - 1888, VAN GOHG




ODE AO OUTONO


1


Estação de neblinas, doce e fecunda!
Companheira íntima do sol, com ele vais,
Quando ele abençoa e inunda
De frutos as videiras junto dos beirais;
Pra vergar de maçãs a musgosa macieira
E a fruta por inteiro tornar madura
Pra inchar as cabaças, prà avelã ficar gorda
Com uma doce amêndoa; há flores com fartura
Pra que a abelha as tenha sempre que queira
E pense haver dias quentes a vida inteira,
Pois o verão seus favos pegajosos transborda .


2


Quem não te viu já de fartura rodeada?
Às vezes, quem te procura sob outros céus,
No chão dum celeiro encontra-te descuidada,
O vento da limpeza ergue-te os cabelos.
Ou num rego meio-ceifado, em fundo torpor,
Tonta do perfume das papoulas, parada
A foice, junto da ceara a ceifar te demoras;
Às vezes, tens direita, qual rebuscador1,
A pesada cabeça, ao passar a ribeira;
Ou, junto de a prensa, observas tranquila
A cidra a gotejar no fluir das horas.


3


Que é das canções da Primavera? Onde hão-de estar?
Esquece-as, tua música também tem valor –
Nuvens orlam o dia morrendo devagar
Tingem os restolhos de sua rósea cor;
De os mosquitos a dorida serrazina,
Crescente, entre os salgueiros do rio se ouvia,
Diminuindo, se o vento fica mais brando;
Os cordeiros balem na próxima colina;
Cantam grilos, alto, mas cheios de harmonia,
Num quintal, pisco vermelho assobia,
E as andorinhas chilreiam nos céus em bando.


John Keats (1795-1821)


Trad. António Simões, in «Antologia de Poesia Anglo-Americana», Campo das Letras, Outubro de 2002

21/10/2011

Cicatrizes

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Há cicatrizes que, periodicamente, desabrocham em flores brancas.

Enganadoras na sua virgindade.

E o persistente aroma suave que delas se evola, na noite cálida, entontece a alma.

Mistificadoras, perfumam a lua que as banha de fantasia.

A aurora encontra-as já esmaecidas, recolhidas nas cicatrizes que as devoram.

Acabou-se o encantamento da ilusão.

E o coração retoma a sua dor de sangue.

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fotos e texto de fernanda s.m.