21/03/2012

A Árvore - Correspondência a Três -

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A árvore é mais alta que ela própria, a árvore supera-se a si própria – por isso ela é tão alta. Uma dessas criaturas com as quais Deus, felizmente, não se preocupou, (elas tomam conta de si próprias) e sobem na direcção dos céus.

«Correspondência a Três» ,Rilke/Pasternak/Tsvétaïeva - Assírio & Alvim,

foto de fernanda s.m. - Em frente do « Grand Palais, Paris »

11/02/2012

"Al-Mu'tamid - o destino de um príncipe"

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Lamento

a alma aflita anseia sempre pela calma,
mas, ai de mim, a desgraça sombria não se vai.
as minhas noites, no palácio de al-Zâhir,
eram sem mácula, como as de um qualquer rei.


ventura, depois desgraça... uma apaga a outra.
por fim, a morte apaga toda a esperança.

in  "Al-Mu'tamid poeta do destino " de Adalberto Alves - Assírio&Alvim
foto de fernanda s.m. - Sevilha

28/01/2012

Tenho remos e sei remar

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No meu barco a remos no meio da imensidão do mar.
Creio que também houve uma bússola.
Outrora.
Não remo.
Olho, à deriva, o horizonte.
Esta imensidão apazigua-me a alma.
Ora azul doirada, como convém à esperança.
Ora, agora, cinzenta plúmbea, raios róseos fugidios, lá no alto.
Não me incomoda nem me perturba. O cinzento dos mares e dos céus.
Perturba-me não me saber a mim, não conhecer o meu rumo.
Os remos, docemente calados no meu regaço, de nada me servem.
Tal como a bússola de hoje me seria inútil.
A de outrora é que me é necessária.


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Tenho remos e sei remar.
Só não sei qual o rumo.
Não remo, não quero.
E conforta-me a intimidade solitária do bote que me acolhe.
Só, na imensidão do mar azul-chumbo.


*******


Boa noite, meu amor.


foto e texto: fernanda s.m.

01/01/2012

Esta madrugada

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Esta madrugada
que me oferece uma luz difusa
o som tímido
da terra que desperta,
o aroma fresco
(esquecido)
da natureza em matutino repouso...


Esta madrugada...
é ela uma promessa ?
Promessa de um futuro
vivido outrora ?



Esta estranheza
de algo vagamente familiar...


***   ***   ***


A madrugada
consente-me
a sensação do sonho.


O dia
sujeita-me
à vida não consentida.
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fernanda s.m. - -2006

foto : ALENTEJO - madrugada, fsm

31/12/2011

Poesia árabe - IBN ‘AMMÂR

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À bem-amada


minh’alma quer-te com paixão
ainda que haja nisso uma tortura.


que estranho ser difícil nossa ligação
se os desejos d’ambos concordaram !


que quereria mais meu coração,
ao desejoso te buscar em buscar vão,
se meus olhos te viram e amaram?


Allâh bem sabe que não há razão
de vir aqui senão para te ver.


que o vigia não nos possa achar
se o nosso reencontro acontecer
Pra os teus lábios doces eu provar.


folgarei no jardim da tua face,
beberei desses olhos o langor,


e mesmo que um terno ramo imitasse
o teu talhe grácil, sedutor,
valerias mais que o imitador.


não te ocultes, oh jardim secreto:
quero colher meu fruto predilecto!

IBN ‘AMMÂR


* - Abû Bakr Muhammad, mais conhecido pelo nome de Ibn ‘Ammâr, nasceu em 422/1031, nos arredores de Silves, mais precisamente em Santibus, um pequeno lugarejo chamado pelos árabes Shannabûs.

in « IBN ‘AMMÂR AL-ANDALUSÎ » de ADALBERTO ALVES e HAMDANE HADJADJI. – Assírio & Alvim

foto de fernanda s.m. - Sevilha

18/12/2011

O menino-deus

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e então o menino-deus abriu a sua caixa de brinquedos
pegou numa estrela e atirou-a lá para fora :
acendeu a noite !

o menino-deus agarrou depois numa linda bola azul ,
dois bonecos , uma lágrima e lançou-os juntos lá para baixo
e sorriu ...

hoje, em cima da bola , olho a estrela
e sonho esse gesto distante
que ditou o princípio das coisas


*

antónio




Com um abraço para o António Cardoso Pinto AQUI
foto de fernanda s.m.

10/12/2011

Por amor de um verso

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POR AMOR DE UM VERSO

Por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, têm que se conhecer os animais, tem que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores se abrem pela manhã. É preciso poder tornar a pensar em caminhos em regiões desconhecidas, em encontros inesperados e despedidas que se viram vir de longe, – em dias de infância ainda não esclarecidos, nos pais que tivemos que magoar quando nos traziam uma alegria e nós não a compreendemos (era uma alegria para outro), em doenças de infância que começam de maneira tão estranha com tantas transformações profundas e graves, em dias passados em quartos calmos e recolhidos e em manhãs à beira-mar, no próprio mar, em mares, em noites de viagem que passaram sussurrando alto e voaram com todos os astros, - e ainda não é bastante poder pensar em tudo isto. É preciso ter recordações de muitas noites de amor, das quais nenhuma foi igual a outra, de gritos de mulheres no parto e de parturientes leves, brancas e adormecidas que se fecham. Mas também é preciso ter estado ao pé de moribundos, ter ficado sentado ao pé de mortos no quarto com a janela aberta e os ruídos que vinham por acessos. E também não é ainda bastante ter recordações. É preciso saber esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter a grande paciência de esperar que elas regressem. Pois que as recordações mesmas ainda não são o que é preciso. Só quando elas se fazem sangue em nós, olhar e gesto, quando já não têm nome e já se não distinguem de nós mesmos, só então é que pode acontecer que, numa hora muito rara, do meio delas se erga a primeira palavra de um verso e saia delas.


 Rainer Maria Rilke, in “ Os Cadernos de Malte Laurids Brigge”, (versão portuguesa, pp 19-20).

foto de fernanda s.m. - o "Gago Coutinho" , Olhos d'Água, engolido pelo mar em 2010.

29/11/2011