25/04/2012


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Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen



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fotografia da net manipulada por fernanda s.m.

Poema a Salgueiro Maia
Ele ia de Santarém
a caminho de Lisboa
não sabia se ganhava
não sabia se perdia.
Ele ia de Santarém
para jogar a sua sorte
a caminho de Lisboa
em marcha de vida ou morte.
E dentro dele uma voz
todo o tempo lhe dizia:
Levar a carta a Garcia.

Ele ia de Santarém
todo de negro vestido
como um cavaleiro antigo
em cima do tanque verde
com o seu elmo e sua lança
ei-lo que avança e avança
ninguém o pode deter.

Ele ia de Santarém
para vencer ou morrer.

E em toda a estrada o ruído
da marcha do Capitão.
Eram lagartas rangendo
e mil cavalos correndo
contra o tempo sem sentido.
E aquela voz que dizia:
Levar a carta a Garcia.

Era um cavaleiro andante
no peito do Capitão.
E o pulsar do coração
de quem já tomou partido.
Ele ia de Santarém
todo de negro vestido.


Manuel Alegre

23/04/2012

A missiva

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Para a Margarida


A missiva

horto de fulgentes estrelas faladas,
iluminador do negríssimo fosso das trevas:
chegou-me o teu poema em hora de tristeza,
fê-la minguar, depois desaparecer.

aqui fica um puro poço de amor
que te convida a beber de novo
como se fora agora a vez primeira.

in «Al-Mu'tamid - poeta do destino» de Adalberto Alves

foto de fernanda s.m.

06/04/2012

Bashô e a Lua Cheia

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Nesta noite
ninguém pode deitar-se:
lua cheia.


Matsuo Bashô

foto de Pedro Carvalho

21/03/2012

A Árvore - Correspondência a Três -

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A árvore é mais alta que ela própria, a árvore supera-se a si própria – por isso ela é tão alta. Uma dessas criaturas com as quais Deus, felizmente, não se preocupou, (elas tomam conta de si próprias) e sobem na direcção dos céus.

«Correspondência a Três» ,Rilke/Pasternak/Tsvétaïeva - Assírio & Alvim,

foto de fernanda s.m. - Em frente do « Grand Palais, Paris »

11/02/2012

"Al-Mu'tamid - o destino de um príncipe"

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Lamento

a alma aflita anseia sempre pela calma,
mas, ai de mim, a desgraça sombria não se vai.
as minhas noites, no palácio de al-Zâhir,
eram sem mácula, como as de um qualquer rei.


ventura, depois desgraça... uma apaga a outra.
por fim, a morte apaga toda a esperança.

in  "Al-Mu'tamid poeta do destino " de Adalberto Alves - Assírio&Alvim
foto de fernanda s.m. - Sevilha

28/01/2012

Tenho remos e sei remar

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No meu barco a remos no meio da imensidão do mar.
Creio que também houve uma bússola.
Outrora.
Não remo.
Olho, à deriva, o horizonte.
Esta imensidão apazigua-me a alma.
Ora azul doirada, como convém à esperança.
Ora, agora, cinzenta plúmbea, raios róseos fugidios, lá no alto.
Não me incomoda nem me perturba. O cinzento dos mares e dos céus.
Perturba-me não me saber a mim, não conhecer o meu rumo.
Os remos, docemente calados no meu regaço, de nada me servem.
Tal como a bússola de hoje me seria inútil.
A de outrora é que me é necessária.


*******


Tenho remos e sei remar.
Só não sei qual o rumo.
Não remo, não quero.
E conforta-me a intimidade solitária do bote que me acolhe.
Só, na imensidão do mar azul-chumbo.


*******


Boa noite, meu amor.


foto e texto: fernanda s.m.

01/01/2012

Esta madrugada

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Esta madrugada
que me oferece uma luz difusa
o som tímido
da terra que desperta,
o aroma fresco
(esquecido)
da natureza em matutino repouso...


Esta madrugada...
é ela uma promessa ?
Promessa de um futuro
vivido outrora ?



Esta estranheza
de algo vagamente familiar...


***   ***   ***


A madrugada
consente-me
a sensação do sonho.


O dia
sujeita-me
à vida não consentida.
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fernanda s.m. - -2006

foto : ALENTEJO - madrugada, fsm

31/12/2011

Poesia árabe - IBN ‘AMMÂR

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À bem-amada


minh’alma quer-te com paixão
ainda que haja nisso uma tortura.


que estranho ser difícil nossa ligação
se os desejos d’ambos concordaram !


que quereria mais meu coração,
ao desejoso te buscar em buscar vão,
se meus olhos te viram e amaram?


Allâh bem sabe que não há razão
de vir aqui senão para te ver.


que o vigia não nos possa achar
se o nosso reencontro acontecer
Pra os teus lábios doces eu provar.


folgarei no jardim da tua face,
beberei desses olhos o langor,


e mesmo que um terno ramo imitasse
o teu talhe grácil, sedutor,
valerias mais que o imitador.


não te ocultes, oh jardim secreto:
quero colher meu fruto predilecto!

IBN ‘AMMÂR


* - Abû Bakr Muhammad, mais conhecido pelo nome de Ibn ‘Ammâr, nasceu em 422/1031, nos arredores de Silves, mais precisamente em Santibus, um pequeno lugarejo chamado pelos árabes Shannabûs.

in « IBN ‘AMMÂR AL-ANDALUSÎ » de ADALBERTO ALVES e HAMDANE HADJADJI. – Assírio & Alvim

foto de fernanda s.m. - Sevilha