25/04/2012

tarde cinzenta em abril

*





da minha aldeia vê-se o mar e a orla branca namorando a duna
que submerge na bruma pendurada nos pinheiros que ecoam
o som cavo das águas que adivinho revoltas como a chuva caída

é hora de estender o olhar e encontrar para lá da janela embaciada
a ternura doce e suave deste cravo onde o meu peito se aconchega

orlando cardoso
25.04.12

«O» Capitão de Abril


Em Abril venceste e em Abril morreste.


*

Cartaz do designer João Machado


Explicação metafórica da brancura dos cravos. Nesse dia, houve cravos brancos e vermelhos: http://www.palaciodasvarandas.blogspot.pt/. Ouvir também entrevista de Salgueiro Maia a partir do 8:28mn, +/: http://youtu.be/MleHl_67iYw?t=8m28s

A Salgueiro Maia

Aquele que na hora da vitória respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite


Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
como antes dele mas também por ele
Pessoa disse


Sophia de Mello Breyner Andresen


*

Salgueiro Maia

04-04-2012

Ficaste na pureza inicial
do gesto que liberta e se desprende.
Havia em ti o símbolo e o sinal
havia em ti o herói que não se rende.

Outros jogaram o jogo viciado
para ti nem poder nem sua regra.
Conquistador do sonho inconquistado
havia em ti o herói que não se integra.

Por isso ficarás como quem vem
dar outro rosto ao rosto da cidade.
Diz-se o teu nome e sais de Santarém
trazendo a espada e a flor da liberdade.

Manuel Alegre

*

Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen



*

fotografia da net manipulada por fernanda s.m.

Poema a Salgueiro Maia
Ele ia de Santarém
a caminho de Lisboa
não sabia se ganhava
não sabia se perdia.
Ele ia de Santarém
para jogar a sua sorte
a caminho de Lisboa
em marcha de vida ou morte.
E dentro dele uma voz
todo o tempo lhe dizia:
Levar a carta a Garcia.

Ele ia de Santarém
todo de negro vestido
como um cavaleiro antigo
em cima do tanque verde
com o seu elmo e sua lança
ei-lo que avança e avança
ninguém o pode deter.

Ele ia de Santarém
para vencer ou morrer.

E em toda a estrada o ruído
da marcha do Capitão.
Eram lagartas rangendo
e mil cavalos correndo
contra o tempo sem sentido.
E aquela voz que dizia:
Levar a carta a Garcia.

Era um cavaleiro andante
no peito do Capitão.
E o pulsar do coração
de quem já tomou partido.
Ele ia de Santarém
todo de negro vestido.


Manuel Alegre

23/04/2012

A missiva

*
Para a Margarida


A missiva

horto de fulgentes estrelas faladas,
iluminador do negríssimo fosso das trevas:
chegou-me o teu poema em hora de tristeza,
fê-la minguar, depois desaparecer.

aqui fica um puro poço de amor
que te convida a beber de novo
como se fora agora a vez primeira.

in «Al-Mu'tamid - poeta do destino» de Adalberto Alves

foto de fernanda s.m.

06/04/2012

Bashô e a Lua Cheia

*



Nesta noite
ninguém pode deitar-se:
lua cheia.


Matsuo Bashô

foto de Pedro Carvalho

21/03/2012

A Árvore - Correspondência a Três -

*



A árvore é mais alta que ela própria, a árvore supera-se a si própria – por isso ela é tão alta. Uma dessas criaturas com as quais Deus, felizmente, não se preocupou, (elas tomam conta de si próprias) e sobem na direcção dos céus.

«Correspondência a Três» ,Rilke/Pasternak/Tsvétaïeva - Assírio & Alvim,

foto de fernanda s.m. - Em frente do « Grand Palais, Paris »

11/02/2012

"Al-Mu'tamid - o destino de um príncipe"

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Lamento

a alma aflita anseia sempre pela calma,
mas, ai de mim, a desgraça sombria não se vai.
as minhas noites, no palácio de al-Zâhir,
eram sem mácula, como as de um qualquer rei.


ventura, depois desgraça... uma apaga a outra.
por fim, a morte apaga toda a esperança.

in  "Al-Mu'tamid poeta do destino " de Adalberto Alves - Assírio&Alvim
foto de fernanda s.m. - Sevilha

28/01/2012

Tenho remos e sei remar

*



No meu barco a remos no meio da imensidão do mar.
Creio que também houve uma bússola.
Outrora.
Não remo.
Olho, à deriva, o horizonte.
Esta imensidão apazigua-me a alma.
Ora azul doirada, como convém à esperança.
Ora, agora, cinzenta plúmbea, raios róseos fugidios, lá no alto.
Não me incomoda nem me perturba. O cinzento dos mares e dos céus.
Perturba-me não me saber a mim, não conhecer o meu rumo.
Os remos, docemente calados no meu regaço, de nada me servem.
Tal como a bússola de hoje me seria inútil.
A de outrora é que me é necessária.


*******


Tenho remos e sei remar.
Só não sei qual o rumo.
Não remo, não quero.
E conforta-me a intimidade solitária do bote que me acolhe.
Só, na imensidão do mar azul-chumbo.


*******


Boa noite, meu amor.


foto e texto: fernanda s.m.

01/01/2012

Esta madrugada

*

Esta madrugada
que me oferece uma luz difusa
o som tímido
da terra que desperta,
o aroma fresco
(esquecido)
da natureza em matutino repouso...


Esta madrugada...
é ela uma promessa ?
Promessa de um futuro
vivido outrora ?



Esta estranheza
de algo vagamente familiar...


***   ***   ***


A madrugada
consente-me
a sensação do sonho.


O dia
sujeita-me
à vida não consentida.
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fernanda s.m. - -2006

foto : ALENTEJO - madrugada, fsm