26/05/2012

Una furtiva lacrima

*



UNA FURTIVA LACRIMA


Desliza


suave


furtiva


uma lágrima


abre em ti
a flor
oculta
e breve


Amélia Pais

22/05/2012

Logo mais

*



 A chuva anoitece o dia mais brevemente do que nossas almas desejam.
  O sol, que não encontrou a força para rasgar a cortina cinzenta da atmosfera, deixando, assim, nossos olhos mergulhados no limbo das cogitações mais íntimas, oferece-se, agora, num esplendor de cores várias, ao cair no mar onde vai, finalmente, repousar da luta diária.
  E deixa, no horizonte, um risco de azul-cobalto argênteo, lá longe, ao cair da tarde, qual promessa de regresso, logo mais, para outro duelo com a borrasca.
  Este raio, com que se despede, prende nossos olhos, tão sofregamente, que continuamos a vê-lo depois de já ter partido.
  Logo mais, amanhã, será o futuro ?

Leiria, 22 de Maio, 2012

texto e foto de fernanda s.m.

16/05/2012

Ontem, hoje. E amanhã ?

*


( texto antigo, mas de hoje )

Perdoem a ironia, mas já não aguento mais ! ! !
foto: fernanda s.m. - marachão
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     « Cai, sobre a cidade do Liz, o silêncio e a calma de um dia quente de setembro: é este, sempre, momento íntimo e forte que convida, instiga mesmo, à meditação sobre os valores e a pureza dos elementos cósmicos, olhando o sombreado que o poderoso astro solar sacode mansamente sobre os pobres humanos, antes que se aproxime a estrela da madrugada.
Mas em lugar nenhum do mundo essa magia é tão pura como nesta cidade! Porque leves Zéfiros inspiradores transportam no ar, não já as brisas do Liz, (sopram de outros quadrantes) mas sim o aroma inspirador das pocilgas e/ou das "etars".
É como se o campo viesse dar um beijo de boas noites, oloroso e romântico, à cidade!
E nesta terra de amores reais cantados, e tantos outros amores sussurrados, os leirienses, contagiados e enfeitiçados por estes aromáticos fins de tarde, sonham, inebriados, com Isabel. A amantíssima esposa e rainha do rei do “verde pinho”; a que conseguia transformar o encardido pão em rosas aromáticas. Pudesse ela sentir estes odores porcinos da sua cidade que embriagam todos os fins de tarde - os quentes, os ventosos, os húmidos, os frios... Pudesse a Santa Isabel, a das rosas, fazer outra vez o milagre, mas agora já não com o pão ... !



Ai, como eu gosto dos fins de tarde na minha cidade, onde chega o aroma forte e acre..., das estevas, quando o vento se engana e sopra de leste! »




fernanda s.m. - setembro de 2007 - in «http://matebarco.multiply.com/journal/item/47/QUANDO_O_VENTO_VEM_DO_NORTE

06/05/2012

Mãe

*


Mãe
Abril é outro tempo,
luz aberta
lembranças de repouso,
parece.

Nalgumas tardes, nesgas de sol,
dá vontade de chamar
mãe, anda cá, vem sossego desta luz,
igualinha às tuas mãos quando eu chegava da escola.

O tempo é o que é
e a luz não se entrega,
é assim.

Mãe, deixa lá,
só queria um poema como o das tuas mãos.

25/04/2012

tarde cinzenta em abril

*





da minha aldeia vê-se o mar e a orla branca namorando a duna
que submerge na bruma pendurada nos pinheiros que ecoam
o som cavo das águas que adivinho revoltas como a chuva caída

é hora de estender o olhar e encontrar para lá da janela embaciada
a ternura doce e suave deste cravo onde o meu peito se aconchega

orlando cardoso
25.04.12

«O» Capitão de Abril


Em Abril venceste e em Abril morreste.


*

Cartaz do designer João Machado


Explicação metafórica da brancura dos cravos. Nesse dia, houve cravos brancos e vermelhos: http://www.palaciodasvarandas.blogspot.pt/. Ouvir também entrevista de Salgueiro Maia a partir do 8:28mn, +/: http://youtu.be/MleHl_67iYw?t=8m28s

A Salgueiro Maia

Aquele que na hora da vitória respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite


Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
como antes dele mas também por ele
Pessoa disse


Sophia de Mello Breyner Andresen


*

Salgueiro Maia

04-04-2012

Ficaste na pureza inicial
do gesto que liberta e se desprende.
Havia em ti o símbolo e o sinal
havia em ti o herói que não se rende.

Outros jogaram o jogo viciado
para ti nem poder nem sua regra.
Conquistador do sonho inconquistado
havia em ti o herói que não se integra.

Por isso ficarás como quem vem
dar outro rosto ao rosto da cidade.
Diz-se o teu nome e sais de Santarém
trazendo a espada e a flor da liberdade.

Manuel Alegre

*

Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen



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fotografia da net manipulada por fernanda s.m.

Poema a Salgueiro Maia
Ele ia de Santarém
a caminho de Lisboa
não sabia se ganhava
não sabia se perdia.
Ele ia de Santarém
para jogar a sua sorte
a caminho de Lisboa
em marcha de vida ou morte.
E dentro dele uma voz
todo o tempo lhe dizia:
Levar a carta a Garcia.

Ele ia de Santarém
todo de negro vestido
como um cavaleiro antigo
em cima do tanque verde
com o seu elmo e sua lança
ei-lo que avança e avança
ninguém o pode deter.

Ele ia de Santarém
para vencer ou morrer.

E em toda a estrada o ruído
da marcha do Capitão.
Eram lagartas rangendo
e mil cavalos correndo
contra o tempo sem sentido.
E aquela voz que dizia:
Levar a carta a Garcia.

Era um cavaleiro andante
no peito do Capitão.
E o pulsar do coração
de quem já tomou partido.
Ele ia de Santarém
todo de negro vestido.


Manuel Alegre

23/04/2012

A missiva

*
Para a Margarida


A missiva

horto de fulgentes estrelas faladas,
iluminador do negríssimo fosso das trevas:
chegou-me o teu poema em hora de tristeza,
fê-la minguar, depois desaparecer.

aqui fica um puro poço de amor
que te convida a beber de novo
como se fora agora a vez primeira.

in «Al-Mu'tamid - poeta do destino» de Adalberto Alves

foto de fernanda s.m.

06/04/2012

Bashô e a Lua Cheia

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Nesta noite
ninguém pode deitar-se:
lua cheia.


Matsuo Bashô

foto de Pedro Carvalho

21/03/2012

A Árvore - Correspondência a Três -

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A árvore é mais alta que ela própria, a árvore supera-se a si própria – por isso ela é tão alta. Uma dessas criaturas com as quais Deus, felizmente, não se preocupou, (elas tomam conta de si próprias) e sobem na direcção dos céus.

«Correspondência a Três» ,Rilke/Pasternak/Tsvétaïeva - Assírio & Alvim,

foto de fernanda s.m. - Em frente do « Grand Palais, Paris »