08/12/2012

Florbela Espanca - a tortura das árvores alentejanas

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Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido... e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não chorais! Olhai e vêde;
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!



Florbela Espanca -  Árvores do Alentejo

23/11/2012

Se houvesse degraus na terra...

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Se houvesse degraus na terra...

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Helder 
foto de fernanda s.m.

04/10/2012

Porque esta noite...


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Porque esta noite penso em ti, Mãe tão longe, e na prenda que te ofereceria por ser o teu aniversário.

Quando foi o tempo em que perdemos o poder de falarmos com a nossa Mãe que levou tanta resposta de que precisamos?

E o colo, esse colo compreensivo em que me quero aninhar.

A noite está calma, mas só me recordo, agora, daquelas noites de trovoadas secas, fortes, maravilhosas, frequentes no céu da nossa terra, a que as duas, minha Mãe jovem e eu tão pequena, assistíamos, maravilhadas, quase clandestinamente, das janelas do último andar da casa que foi nossa, rasgando os cumes dos montes, derramando cores e sombras até ao vale, enquanto estremecia a terra debaixo dos nossos pés.

Porquê esta lembrança esta noite ?

Será o meu presente de aniversário planetário. Esta foto feita por mim.

Boa noite, Mãe.

foto e texto de fernanda sal monteiro

28/08/2012

metáfora solitária da despedida.

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Lamento

Para a Fernanda Sal Monteiro


Que metáfora, como onda solitária, varre o areal da madrugada, mesmo antes de as primeiras pegadas anunciarem as viagens para sul?

Que onda solitária, como metáfora, varre o areal da memória, mesmo antes de as primeiras viagens para sul anunciarem as primeiras pegadas?

Tristes lamentações estas de fim de Verão, quando as viagens já são sem retorno e não deixam na areia da vazante rasto que nos possa ensinar o caminho de regresso a casa!

Assim, mais vale rumar a norte e esperar que os ventos propícios nos refresquem os olhos, enquanto as águas mais frias nos avivam a memória de tudo o que ainda há para fazer: seja adormecer ao som da lua nova, à beira-mar, seja acordar ao som dos primeiros raios de sol, à beira das fontes que alimentam o rio, como se alimentassem a vida.

Vamos, pois, lavar as mãos nesta corrente fria que nos atravessa a garganta e, com elas ainda húmidas, escrever no areal da memória a metáfora solitária da despedida.


Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000

« É uma casa tão grande a ausência »

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Se morrer, sobrevive-me com tanta força pura
que despertes a fúria do desanimado e do frio,
de sul a sul ergue os teus olhos indeléveis
que, de sol a sol ,soe a tua boca de guitarra.
 
Não quero que vacilem o teu riso, nem os teus passos,
não quero que morra a minha herança de alegria,
não chames ao meu peito, estou ausente.
Vive na minha ausência como numa casa.
 
É uma casa tão grande, a ausência,
que passarás nela através  das paredes
e no ar suspenderás os quadros.
 
É uma casa tão transparente, a ausência,
que eu, sem vida, te verei viver
e se sofreres, meu amor, voltarei a morrer.
 
Pablo Neruda   in  “ Cien  Sonetos de Amor” - Soneto XCIV.
       foto de fernanda s.m.


26/06/2012

quando, minha luminosa

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quando, minha luminosa, deitado penso em ti
e a teu lado bebo as sombras que te pousam na pele,
apenas a harmonia se respira
da tua testa pousada no meu peito, das tuas mãos presas às minhas.
a noite avança e eu a medo toco o teu cabelo.
o silêncio tem a paz de um olival e dos nossos passeios no alentejo,
o meu amor é como a lua a aflorar-te a face adormecida,
o meu amor é esta e todas as noites, um sobressalto de
estrelas benfazejas,
uma espuma serena em que repouses, uma corrente em que nades de alegria,
uma vide a entrelaçar-te, ó minha luminosa, uma concha de ternura que te guarde.
uma espécie de música que vá vibrando em ti.


Vasco Graça Moura - in "currente calamo" (Poesia 2001/2005)
foto de fernanda s.m. - "Oliveiras- Alentejo"

17/06/2012

Um grego poeta

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     *Lírio-aranha (Hymenocallis festalis). - foto de A. Mota




O SENTIDO DA SIMPLICIDADE


Escondo-me atrás de coisas simples,
para que me encontres.
Se não me encontrares, encontrarás as coisas,
tocarás o que minha mão já tocou,
os traços juntar-se-ão de nossas mãos,
uma na outra.


A lua de agosto brilha na cozinha
como pote estanhado (pela razão já dita),
ilumina a casa vazia e o silêncio ajoelhado,
este silêncio sempre ajoelhado.


Cada palavra é a partida
para um encontro - muita vez anulado –
e só é verdadeira quando, para esse encontro,
ela insiste, a palavra.





Yannis Ritsos




Tradução de  Eugénio de Andrade










15/06/2012

O centro do mundo

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o centro do mundo

da minha janela quando nasce o sol vejo o centro do mundo

o musgo sorvendo a curta humidade sobrevivente das pedras

passageiras do tempo os lagartos escondendo-se nas fendas

escuras um mundo secreto e fechado viscoso como a noite



de pedras polidas pela patina do nosso tempo  se cobre a luz

do sol que enche a minha varanda e a janela aberta
*****
foto e texto de Orlando Cardoso

02/06/2012

Da ternura

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No fundo da ternura há um som de lágrimas -
água clara onde o sol do entardecer
odoroso se deteve;
vem das lembranças, cristais de sal,
chispas na pele esfolada pelos jogos
infantis e as perdas
de que a vida nos preencheu os dias.
Companheira amável do desencanto,
outra forma afinal de dizer mágoa.



Soledade Santos in  « Sob os teus pés a terra » - Artefacto

foto de autor desconhecido

26/05/2012

Una furtiva lacrima

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UNA FURTIVA LACRIMA


Desliza


suave


furtiva


uma lágrima


abre em ti
a flor
oculta
e breve


Amélia Pais