23/12/2012

António Pina e o Natal

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OS DOIS NATAIS


"O Menino Jesus, deitado, olhava em volta e não compreendia. Entrevia difusamente o rosto fatigado da mãe, o vulto de S. José mais atrás, os olhos grandes da vaca e do burro fitando-o. Chegavam-lhe de forma obscura o murmúrio das vozes e o cheiro dos animais; tinha frio. Via também, em qualquer sítio, como num sonho, rostos disformes, punhos, gente gritando, a enorme sombra de uma cruz, e não compreendia.

A dor, quando as mãos trémulas da mãe cortaram o cordão umbilical, o sabor do sangue dela na boca, as primeiras lágrimas, a primeira carícia, o corpo de Nossa Senhora, branco e transido, era tudo tão estranho! Um deus, sobre húmidas palhas, coberto de trapos, aprendia naquele instante coisas graves e essenciais: o frio, a dor, o mistério dos sentidos, o medo indistinto de algo que ainda não podia saber.

O deus transformara-se num frágil e confuso ser de sangue e de músculos, tocado por um dom extraordinário e novo, o da vida. Os pulmões do menino enchiam-se de áspero ar, os olhos de incompreensíveis imagens do mundo vasto e profundo do estábulo, e o sangue corria violentamente nas suas veias, líquido e quente, ruborizando-lhe as faces. E quando os seus pequenos dedos afloraram pela primeira vez o rosto próximo da mãe, o deus aprendeu subitamente, com uma alegria desconhecida, qualquer coisa densa e maravilhosa inacessível aos deuses.

Por um singular milagre repetido, um homem igual aos outros homens jazia imensamente numa tosca manjedoura, no fim de uma longa viagem interior. Um homem condenado a viver uma tragédia absurda, como a de todos os homens, um homem solitário e ferido de brusca e humana vida, tocado pela glória extrema da transformação e da morte. Os seus olhos olhavam pela primeira vez tudo, incapazes talvez de compreender o íntimo desígnio divino que o movia. Em algum improvável lugar, no entanto, os deuses conheciam agora algo único e absoluto sobre os homens e sobre si mesmos.

Pelo segredo essencial da infância, da «balya», por onde passa o caminho dos homens para o reino dos céus, passava também, naquele dia distante, o caminho dos deuses para a terra dos homens. Um deus nascera entre os homens, mas um homem como todos os outros nascera igualmente entre os deuses. E enquanto no estábulo de Belém a mãe dava o peito ao menino deus, noutro estábulo, noutro sítio, Adão menino estendia os braços e chegava sem pecado aos ramos altos da árvore
proibida".

Manuel António Pina


foto de fernanda s. m.

Cabo Verde

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Bravinha di nhô Jene

mas grandi di morabeza

Amor ka nasê ôto

log kel bai subi Séu
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DEZ GRÃOZINHO DI TERRA

De: Jotamont


Es dez grãozinho di terra
Qui Deus espadjá na mei di mar
És é di nós és cá tomado na guerra
É Cabo Verde terra querida
Oh Cabo Verde terra 'stimada
Terra di paz terra di gozo
Tude quem djobel na sê regoge
El ca ta bai, el crè ficá
E s'el mandado el ta tchorá
Tchorá sodadi di bôs morenas
Quês ta levá na pensamento
Tchorá recordaçons eternas
Di tempo qui ca tinha sofrimento
Ma mi'm tem fé na Noss Senhor
M'ês vida c'a bai sempre assim
M'el ta libiano di tudo nôs dor
Pês sofrimento podê tem fim
 
imagem do livro "ilhas de fogo" de Pedro Rosa Mendes e Alan Corbel

08/12/2012

Florbela Espanca - a tortura das árvores alentejanas

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Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido... e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não chorais! Olhai e vêde;
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!



Florbela Espanca -  Árvores do Alentejo

23/11/2012

Se houvesse degraus na terra...

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Se houvesse degraus na terra...

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Helder 
foto de fernanda s.m.

04/10/2012

Porque esta noite...


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Porque esta noite penso em ti, Mãe tão longe, e na prenda que te ofereceria por ser o teu aniversário.

Quando foi o tempo em que perdemos o poder de falarmos com a nossa Mãe que levou tanta resposta de que precisamos?

E o colo, esse colo compreensivo em que me quero aninhar.

A noite está calma, mas só me recordo, agora, daquelas noites de trovoadas secas, fortes, maravilhosas, frequentes no céu da nossa terra, a que as duas, minha Mãe jovem e eu tão pequena, assistíamos, maravilhadas, quase clandestinamente, das janelas do último andar da casa que foi nossa, rasgando os cumes dos montes, derramando cores e sombras até ao vale, enquanto estremecia a terra debaixo dos nossos pés.

Porquê esta lembrança esta noite ?

Será o meu presente de aniversário planetário. Esta foto feita por mim.

Boa noite, Mãe.

foto e texto de fernanda sal monteiro

28/08/2012

metáfora solitária da despedida.

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Lamento

Para a Fernanda Sal Monteiro


Que metáfora, como onda solitária, varre o areal da madrugada, mesmo antes de as primeiras pegadas anunciarem as viagens para sul?

Que onda solitária, como metáfora, varre o areal da memória, mesmo antes de as primeiras viagens para sul anunciarem as primeiras pegadas?

Tristes lamentações estas de fim de Verão, quando as viagens já são sem retorno e não deixam na areia da vazante rasto que nos possa ensinar o caminho de regresso a casa!

Assim, mais vale rumar a norte e esperar que os ventos propícios nos refresquem os olhos, enquanto as águas mais frias nos avivam a memória de tudo o que ainda há para fazer: seja adormecer ao som da lua nova, à beira-mar, seja acordar ao som dos primeiros raios de sol, à beira das fontes que alimentam o rio, como se alimentassem a vida.

Vamos, pois, lavar as mãos nesta corrente fria que nos atravessa a garganta e, com elas ainda húmidas, escrever no areal da memória a metáfora solitária da despedida.


Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000

« É uma casa tão grande a ausência »

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Se morrer, sobrevive-me com tanta força pura
que despertes a fúria do desanimado e do frio,
de sul a sul ergue os teus olhos indeléveis
que, de sol a sol ,soe a tua boca de guitarra.
 
Não quero que vacilem o teu riso, nem os teus passos,
não quero que morra a minha herança de alegria,
não chames ao meu peito, estou ausente.
Vive na minha ausência como numa casa.
 
É uma casa tão grande, a ausência,
que passarás nela através  das paredes
e no ar suspenderás os quadros.
 
É uma casa tão transparente, a ausência,
que eu, sem vida, te verei viver
e se sofreres, meu amor, voltarei a morrer.
 
Pablo Neruda   in  “ Cien  Sonetos de Amor” - Soneto XCIV.
       foto de fernanda s.m.


26/06/2012

quando, minha luminosa

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quando, minha luminosa, deitado penso em ti
e a teu lado bebo as sombras que te pousam na pele,
apenas a harmonia se respira
da tua testa pousada no meu peito, das tuas mãos presas às minhas.
a noite avança e eu a medo toco o teu cabelo.
o silêncio tem a paz de um olival e dos nossos passeios no alentejo,
o meu amor é como a lua a aflorar-te a face adormecida,
o meu amor é esta e todas as noites, um sobressalto de
estrelas benfazejas,
uma espuma serena em que repouses, uma corrente em que nades de alegria,
uma vide a entrelaçar-te, ó minha luminosa, uma concha de ternura que te guarde.
uma espécie de música que vá vibrando em ti.


Vasco Graça Moura - in "currente calamo" (Poesia 2001/2005)
foto de fernanda s.m. - "Oliveiras- Alentejo"

17/06/2012

Um grego poeta

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     *Lírio-aranha (Hymenocallis festalis). - foto de A. Mota




O SENTIDO DA SIMPLICIDADE


Escondo-me atrás de coisas simples,
para que me encontres.
Se não me encontrares, encontrarás as coisas,
tocarás o que minha mão já tocou,
os traços juntar-se-ão de nossas mãos,
uma na outra.


A lua de agosto brilha na cozinha
como pote estanhado (pela razão já dita),
ilumina a casa vazia e o silêncio ajoelhado,
este silêncio sempre ajoelhado.


Cada palavra é a partida
para um encontro - muita vez anulado –
e só é verdadeira quando, para esse encontro,
ela insiste, a palavra.





Yannis Ritsos




Tradução de  Eugénio de Andrade










15/06/2012

O centro do mundo

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o centro do mundo

da minha janela quando nasce o sol vejo o centro do mundo

o musgo sorvendo a curta humidade sobrevivente das pedras

passageiras do tempo os lagartos escondendo-se nas fendas

escuras um mundo secreto e fechado viscoso como a noite



de pedras polidas pela patina do nosso tempo  se cobre a luz

do sol que enche a minha varanda e a janela aberta
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foto e texto de Orlando Cardoso