17/05/2008

Orlando









( à Fernanda Sal Monteiro,
a 8 de Março )





Orlando era um rapazinho estranho. pertencia ao 2º-5ª, a turma dos reguilas.
"foram todos escolhidos a dedo" - diziam alguns colegas.
era o Orlando, o Rui, o Fernando, o "Caixinha". irreverentes, não submissos, nos seus 15 anos. fartos de matérias repetidas em anos transactos, tornadas monótonas pelo cansaço do próprio cansaço. procuravam pelo afrontamento, acordá-la do tédio, despertá-la para a realidade do quotidiano, despi-la das suas certezas.
era a esperança metamorfoseada na adolescência.
era a Vida.
"sôtora, o Orlando hoje está bêbado. foi almoçar na venda da esquina e obrigaram-no a beber uma porrada de vinho. é verdade, sôtora - dizia o Caixinha -
começaram a dizer-lhe que não era homem, não era nada, se não aguentasse um copo de vinho. que o vinho dá força à gente. eu cá tive medo e não quis. o gajo chamou-me maricas. depois o Orlando sentiu-se mal disposto e fartou-se de vomitar. se a sôtora visse o ar do homem
volta-se aos berros com a gente - como se eu tivesse alguma culpa -, a dizer que não queria javardos no restaurante dele. que até tinha uma filha professora no Alentejo".
a cabeça loura do Orlando acordava nos braços cruzados sobre a carteira. olhos brilhantes. uma bebedeira, a que a estupidez dos homens tirara toda a irreverência e tornara submissos, aguardavam, confusos, a cumplicidade da sentença
uma falta, a participação, outro chumbo, uma nova turma de repetentes reguilas, porque "foram todos escolhidos a dedo" - lia-se na semiconsciência dos seus olhos brilhantes.
no dia seguinte não apareceu na Escola. passou o trimestre.
as matérias repetiram-se. a monotonia e o tédio vestiram a insapiência do seu saber. os dias voltaram a ser iguais no cansaço do seu cansaço.
começava o mês de Março. um sorriso louro escondia uma camélia queimada pelo orvalho das manhãs. era o Orlando.
"amanhã vou para Lisboa e depois para Inglaterra. a minha mãe que trabalha num hotel escreveu a dizer que arranjou-me trabalho. o meu irmão também lá está. foi por isso que eu deixei a Escola. andei com os pedreiros".
"não tens pena de deixar a tua avó, os teus amigos?"
"a minha avó? essa nunca me ligou, e amigos há muitos. mas não queria abalar sem me despedir da sôtora e trazer-lhe isto".
estendeu-a sem jeito e partiu.
"obrigada, Orlando".
"obrigado, não.
- voltou-se. - ou melhor!, obrigado, sim, pela falta que não me marcou naquele dia".
aquela camélia murchou. muitas outras se têm aberto. todavia, a cabeça loura do Orlando adormece ainda nos braços cruzados da sua memória ...


gabriela rocha martins - in « Delete-me » - Folheto Edições & Design - inverno de 2008.

4 comentários:

gabriela r martins disse...

sua malandra!!!!!!!! isto não era para se mostrar .era para ficar ,apenas ,entre nós
( eheheheheheheheeheh )
que "ganda lata"!!!!!!!!!!!!!!!


um beijinho
[em dia de revisão de "tropas"]

fernanda s.m. disse...

Ai não era ??? E porque não, se eu fiquei tão contente com este presente reenviando a pedaços da minha vida de Professora ( nos bons tempos, em que ensinar era um gosto ...) ???

E o que nos agrada deve ser partilhado !
Obrigada, querida Maria Gabriela !

Rosa disse...

lindo,fez bem em publicar
beijos

fernanda s.m. disse...

Olá, Rosa! também concorda que este conto devia ser publicado, não é ? E eu tão contente com esta homenagem que a Maria Gabriela me fez !!! E também com a sua visita à minha estrela da madrugada! Obrigada e vá passando.
Bjs.