21/02/2015

Era Verão. Tudo chegava demasiado cedo.

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 Outrora, as tuas mãos, a tinta secreta,
 uma sinfonia inacabada,
 as jóias, o céu, o veludo, o rosto,
 o lume espesso.
 As madressilvas evolavam-se.
 Éramos a semente, o som,
 o ópio, a tintura do mar,
 a raiz das mandrágoras.
 A magia submersa derramava
 tatuagens leves.

 Era Verão. Tudo chegava demasiado cedo.



  Maria do Sameiro Barroso, in « O Corpo Lugar de Exílio »
  

25/07/2014

Memória despertada

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     foto minha



(...) « Que pássaro está cantando lá fora na minha memória ?,que música tão irracional é esta que faz nascer água nas minhas faces e nas sombra do espelho, ao pé da janela? A aragem que palpita na varanda entra pelo quarto em migalhas de luz. A minha imagem no espelho ri-se de mim.           Vou rasgar esta carta aos bocadinhos e queimá-los. »

Urbano Tavares Rodrigues - « Embarque para Citera »

20/06/2013

Uma aprendizagem...

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« (...) Quando desligou o telefone, a noite estava úmida e a escuridão suave, e viver era ter um véu cobrindo os cabelos. Então com ternura aceitou estar no mistério de ser viva. Antes de se deitar foi ao terraço: uma lua cheia estava sinistra no céu. Então ela se banhou toda nos raios lunares e se sentiu profundamente límpida e tranquila. Pouco a pouco foi adormecendo de doçura, e a noite era bem dentro. Quando a noite amadurecesse viria o véu mais cheio de brisa da madrugada. Por enquanto, ela estava delicadamente viva, dormindo. »


Clarice Lispector - " Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres " , Relógio D'Água

foto de fernanda s. m.

08/03/2013

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Mais um belo cartão que recebi hoje de mãos amigas. E a todos agradeço, comovida.

23/12/2012

António Pina e o Natal

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OS DOIS NATAIS


"O Menino Jesus, deitado, olhava em volta e não compreendia. Entrevia difusamente o rosto fatigado da mãe, o vulto de S. José mais atrás, os olhos grandes da vaca e do burro fitando-o. Chegavam-lhe de forma obscura o murmúrio das vozes e o cheiro dos animais; tinha frio. Via também, em qualquer sítio, como num sonho, rostos disformes, punhos, gente gritando, a enorme sombra de uma cruz, e não compreendia.

A dor, quando as mãos trémulas da mãe cortaram o cordão umbilical, o sabor do sangue dela na boca, as primeiras lágrimas, a primeira carícia, o corpo de Nossa Senhora, branco e transido, era tudo tão estranho! Um deus, sobre húmidas palhas, coberto de trapos, aprendia naquele instante coisas graves e essenciais: o frio, a dor, o mistério dos sentidos, o medo indistinto de algo que ainda não podia saber.

O deus transformara-se num frágil e confuso ser de sangue e de músculos, tocado por um dom extraordinário e novo, o da vida. Os pulmões do menino enchiam-se de áspero ar, os olhos de incompreensíveis imagens do mundo vasto e profundo do estábulo, e o sangue corria violentamente nas suas veias, líquido e quente, ruborizando-lhe as faces. E quando os seus pequenos dedos afloraram pela primeira vez o rosto próximo da mãe, o deus aprendeu subitamente, com uma alegria desconhecida, qualquer coisa densa e maravilhosa inacessível aos deuses.

Por um singular milagre repetido, um homem igual aos outros homens jazia imensamente numa tosca manjedoura, no fim de uma longa viagem interior. Um homem condenado a viver uma tragédia absurda, como a de todos os homens, um homem solitário e ferido de brusca e humana vida, tocado pela glória extrema da transformação e da morte. Os seus olhos olhavam pela primeira vez tudo, incapazes talvez de compreender o íntimo desígnio divino que o movia. Em algum improvável lugar, no entanto, os deuses conheciam agora algo único e absoluto sobre os homens e sobre si mesmos.

Pelo segredo essencial da infância, da «balya», por onde passa o caminho dos homens para o reino dos céus, passava também, naquele dia distante, o caminho dos deuses para a terra dos homens. Um deus nascera entre os homens, mas um homem como todos os outros nascera igualmente entre os deuses. E enquanto no estábulo de Belém a mãe dava o peito ao menino deus, noutro estábulo, noutro sítio, Adão menino estendia os braços e chegava sem pecado aos ramos altos da árvore
proibida".

Manuel António Pina


foto de fernanda s. m.

Cabo Verde

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Bravinha di nhô Jene

mas grandi di morabeza

Amor ka nasê ôto

log kel bai subi Séu
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DEZ GRÃOZINHO DI TERRA

De: Jotamont


Es dez grãozinho di terra
Qui Deus espadjá na mei di mar
És é di nós és cá tomado na guerra
É Cabo Verde terra querida
Oh Cabo Verde terra 'stimada
Terra di paz terra di gozo
Tude quem djobel na sê regoge
El ca ta bai, el crè ficá
E s'el mandado el ta tchorá
Tchorá sodadi di bôs morenas
Quês ta levá na pensamento
Tchorá recordaçons eternas
Di tempo qui ca tinha sofrimento
Ma mi'm tem fé na Noss Senhor
M'ês vida c'a bai sempre assim
M'el ta libiano di tudo nôs dor
Pês sofrimento podê tem fim
 
imagem do livro "ilhas de fogo" de Pedro Rosa Mendes e Alan Corbel

08/12/2012

Florbela Espanca - a tortura das árvores alentejanas

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Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido... e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não chorais! Olhai e vêde;
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!



Florbela Espanca -  Árvores do Alentejo

23/11/2012

Se houvesse degraus na terra...

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Se houvesse degraus na terra...

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Helder 
foto de fernanda s.m.

04/10/2012

Porque esta noite...


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Porque esta noite penso em ti, Mãe tão longe, e na prenda que te ofereceria por ser o teu aniversário.

Quando foi o tempo em que perdemos o poder de falarmos com a nossa Mãe que levou tanta resposta de que precisamos?

E o colo, esse colo compreensivo em que me quero aninhar.

A noite está calma, mas só me recordo, agora, daquelas noites de trovoadas secas, fortes, maravilhosas, frequentes no céu da nossa terra, a que as duas, minha Mãe jovem e eu tão pequena, assistíamos, maravilhadas, quase clandestinamente, das janelas do último andar da casa que foi nossa, rasgando os cumes dos montes, derramando cores e sombras até ao vale, enquanto estremecia a terra debaixo dos nossos pés.

Porquê esta lembrança esta noite ?

Será o meu presente de aniversário planetário. Esta foto feita por mim.

Boa noite, Mãe.

foto e texto de fernanda sal monteiro

28/08/2012

metáfora solitária da despedida.

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Lamento

Para a Fernanda Sal Monteiro


Que metáfora, como onda solitária, varre o areal da madrugada, mesmo antes de as primeiras pegadas anunciarem as viagens para sul?

Que onda solitária, como metáfora, varre o areal da memória, mesmo antes de as primeiras viagens para sul anunciarem as primeiras pegadas?

Tristes lamentações estas de fim de Verão, quando as viagens já são sem retorno e não deixam na areia da vazante rasto que nos possa ensinar o caminho de regresso a casa!

Assim, mais vale rumar a norte e esperar que os ventos propícios nos refresquem os olhos, enquanto as águas mais frias nos avivam a memória de tudo o que ainda há para fazer: seja adormecer ao som da lua nova, à beira-mar, seja acordar ao som dos primeiros raios de sol, à beira das fontes que alimentam o rio, como se alimentassem a vida.

Vamos, pois, lavar as mãos nesta corrente fria que nos atravessa a garganta e, com elas ainda húmidas, escrever no areal da memória a metáfora solitária da despedida.


Augusto Mota, inédito, in "Geografia do Prazer", 2000