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27/08/2009

Em casulo me transformei

*




Casulo tecido de memórias
eu sou.

Sou
os rios que passámos,
as músicas que cantámos.

Sou

as casas que habitámos,
as conversas que falámos.

A lembrança sou
do Amor que já não é,
mas vivo o sinto.
Da presença que partiu
mas o sentir deixou.

E sei ** sim **sei
que a vida nada mais é
que sonho enredado
de memórias vividas
.


*****
texto e foto: fernanda s.m.

25/07/2009

Sábado

*


Sábado - hoje - o dia da solidão.
Porque deixo que a memória se torne minha ama e senhora.
(desisto de a impedir de ser...)
A memória (
ou o que julgamos que seja...) instala-se.
E o silêncio
é todo meu ser.
Quanto mais o silêncio é,
mais as palavras são grandes, enormes, pesadas
e submergem.
Então, a memória ilumina de saudades
a silenciosa solidão.


Hoje, permito que seja sábado.







foto e texto: fernanda s.m.

02/11/2008

No dia 2 de Novembro



Sonho. Não.
Velo? Venho do sonho...
Sinto a carícia leve, irreal, espraiada.

Dourada, também.
Como as dunas do deserto afloradas pelo sol que desperta, glorioso.

Vem, inebriante de aroma de flores brancas.
Gardénias da minha juventude, nardos do meu casamento.
Perfumes estremecidos pela sensualidade das noites quentes do verão.

Agora é já azul, fresca.
Onda do mar sereno brincando na areia que desperta do luar do plenilúnio.

Fecho os olhos com muita meiguice.

Não quero que a carícia se dilua.
Agarro-me a ela.
Pelas minhas mãos escoa-se apenas areia.

Do deserto.
Da beira-mar.

A carícia habita na minha memória.
Para sempre viva.

 

***
texto e foto: fernanda s.m.

09/09/2008

September song(s) - 6






*****





Setembro
 
Procuro.

Mas a procura já não existe.
O azul doirado tinge de verde sombrio os pinheiros
e, as oliveiras, de cinza prata.

Mas as laranjas, já não as como na falésia, ao longe.
A ilha guarda ainda o seu pessegueiro.

Mas o vizir que se matou novo, por amor,
já lá não está para o ver.

***
 
Plantámos pessegueiros nas ilhas que habitámos.
Fomos vizires das terras do sul.

Outros comerão as frutas que, juntos, plantámos.
Não nos estava destinado, a nós, prová-las.

Plantámos e morremos.

A minha vida está muito cansada.
Vai sentar-se frente ao mar de prata.
Nada, ninguém, a poderá levantar.
Só tu.


foto e texto:f.s.m.
 
 

20/07/2008

A Cruz





A vida - viagem que acaba antes do fim.
Saímos sempre a meio da caminhada.


***
E ficamos a olhar para além do não atingido...


Foto e texto : fernanda s.m.
foto - Waterville - Ring of Kerry, Irlanda.


10/07/2008

Viagens - outrora e agora.



As minhas viagens são, agora, atravessar o olhar pelo teu azul imenso.
Imaginar-me movida pelo balanço incessante das tuas ondas.
Imaginar que as velas brancas que passam a rasar o horizonte,
( em que o teu azul e o do céu se casam ),
são os únicos tripulantes dos barcos que singram
calmamente.

E que por mim esperam.

As cigarras enrouquecem ao calor que as sufoca no meio da vegetação.
Ali, tão à tua beira ...
Que sentido terá o seu estrídulo cantar ?
De vida ou de morte ?

E a ânsia não dorme !
Nada há que encha as minhas mãos de vida.
Não conseguem abarcar a tua imensidão infinita !

fernanda s.m. 12-8-2007 // Algarve ( Penecos)
foto: fsm - praia dos "Penecos"

05/04/2008

Porque hoje recordo ...


No jardim da minha Avó,
havia sol azul e perfume de laranjeira.


E éramos meninos a brincar.


No jardim da minha Avó,
havia o murmúrio embalador da fonte
escorrendo água e aroma verde de lúcia-lima.


E éramos jovens a sonhar.

Os sonhos subiram colinas, atravessaram rios nas planícies ...


No jardim da minha Avó
espera a agridoce malva rosa na sombra fresca da tarde.


Por onde se perdem as nossas ausências?


No jardim da minha Avó,
há o absurdo do silêncio esquecido.




texto e foto . fernanda s.m.